Irresistível Graça

Prestes a dormir, algo me cobra. Me cobra para que eu enxergue. Gosto das palavras, trabalho com elas, por elas e é a própria linguagem meu objeto de estudo. Algo em mim, bem agora, quando estou notoriamente cansada, vem para dizer que há coisas muitíssimo mais importantes, e de repente passo a refletir, mais profundamente, sobre como Deus nos escolhe, cada qual, para os seus propósitos, do modo que lhe apraz.
Tenho por certo que não escolhi as palavras. Tampouco elas me escolheram. Fui predestinada. Há tempos, Deus colocou em meu coração a inclinação para o fato de que nada – de bom – faço por que quero. Não fosse a misericórdia do Senhor…
Fato é que nesta caminhada entre ser encontrada e aprender, por dias, pego-me pensando na veracidade daquilo que me foi dado a fazer. O trabalho com a linguagem, me permito dizer, é o modo pelo qual me sinto mais próxima do Evangelho e o modo usado por Deus para que, nesse processo, pudesse entender mais sobre a Graça redentora e imerecida.
Não tenho propósito nenhum, aqui, senão me reconhecer inútil e miserável. Mas tenho, por alegria, nesta madrugada, o reconhecimento daquilo que fui dirigida a fazer, anos atrás, quando o que entendia por Graça era tão simplista e desfocado, embora o caminho para a verdadeira sabedoria não esteja minimamente perto de ter sido assim percorrido. A alegria de hoje – e de todos os dias dá minha vida – é saber que eu não estou no domínio de mim mesma e que eu mesma não posso salvar-me. A alegria de hoje é a observação de que, nos meus planos, eu apenas queria um curso com o qual me identificasse. Felicidade a minha não ser autora de minha própria história. Felicidade a minha não depender de mim mesma.

Anúncios

Canção de última hora

Não permita, Deus, que eu morra sem alguns versos para cumprir, algumas palavras a dar e uns últimos acordes no piano. Faça de mim instrumento e não me deixe tocar só. A vida tem um quê de nos ludibriar com doçuras, às vezes. Não permita, Deus, que eu deixe de lado a agrura presente em prol do futuro sonhado por ter a vida me deixado laços difíceis de se romper. Deixe-me ver ainda uma vez mais São Paulo e deixe que sua luz me encha os olhos. Não me deixe sem os abraços que faltam, os pedidos de perdão e as lágrimas que restam para cair. Quando sorrisos houver, deixe-me dá-los ainda uma vez mais. Não permita, Deus, que eu morra sem a finalização desse livro de cabeceira e sem as pendências que me faltam. Mas permita, Deus, que eu entenda. Permita-me ser, ainda que uma vez só, aquela que se regozija em de fato compreender, e então estarei livre. Não permita, Deus, que eu morra sem esse último suspiro de quem desaba, suspiro de quem se rende, suspiro que não acaba.

Choice

Pausa. Eu sei que nem deveria. Dever me chama, correria me espera. Mas pausa. Os papéis estão todos jogados, os relatórios no início e o compromisso de hoje adiei apenas um pouquinho. Precisava comunicar sobre o amor pelos detalhes e sobre esse sol tão lindo despontando agora, como quem grita “estou aqui ainda”. Às vezes, essa maçante correria e os contratempos quase me largam aqui, me esgueirando para os cantos onde o sol não brilha.
Estava só e somente pensando sobre as coisas tão simples, vendo os monumentos paulistanos e imaginando como seria bom sentir agora os chuviscos da minha terra da garoa. Pensando que seria bom, novamente, olhar de fora um casal feliz e a construção tão forte de suas relações de amor. Não sei se posso escrever isso nos relatórios. Tenho comigo a leve sensação de que não, mas sei que algo de mim sente falta de algo que agora não tenho.
Não sei quantas vezes essa pontinha de alguma coisa nostálgica, de alguma coisa feliz e de alguma coisa importante bate na nossa porta. Não sei quanto tempo ela dura nem o que vem buscar. Não sei o que ela quer dizer nem o que pretende. Mas eu também não sei de mim, o que me deixa em desvantagem para cobrar isso. Sei somente que a pausa foi necessária. Não fui eu quem disse, não optei por nada. Fui movida, como todas as vezes em que as palavras me escolhem. Elas sabem sempre a hora de me escolher. Boa amante que sou, faço-lhes a vontade.